[A REVISTA "DEVIR" EM SALAMANCA]



Presentados por Luis Arturo Guichard, profesor de la Facultad de Filología de la Universidad de Salamanca y miembro del consejo asesor de dicha revista, los directores de Nuno Matos y Ruy Ventura expusieron las directrices de ‘Devir. Revista Ibero-Americana de Cultura’, que publica originales en portugués, español y gallego, tanto de poesía, ensayo y narrativa breve. También tiene secciones dedicadas a las artes visuales. La publicación, que apuesta por el futuro, aparece bajo el sello de Edições Licorne, afincada en Évora. Con una periodicidad semestral, hasta ahora han salido dos números y está cerrado el número 3, donde aparecerán dos poemas inéditos de Alfredo Pérez Alencart, profesor de la Usal y colaborador de SALAMANCArtv AL DÍA. En el último número aparecido, el número 2, se acogen  poemas de António Telmo, Casé Lontra Marques, Edmar Guimarães, Fernando Guimarães, Filipa Barata, Iacyr Anderson Freitas, José Luis Calvo, José Luís Peixoto, Juan Alcántara, Luís Leal, Márcio-André, Rita Taborda Duarte, Ruy Ventura y Virna Teixeira. También ensayos y crónicas de António Carlos Carvalho, Antonio Sáez Delgado, Bianka de Andrade Silva, José do Carmo Francisco, Levi Condinho, Nuno Matos Duarte, Pedro Martins y Risoleta C. Pinto Pedro. Es destacable un dossier dedicado a uno de los poetas cubanos más importantes, José Kozer, con tres poemas inéditos y un ensayo de Luis Arturo Guichard. También resalta una antología del notable poeta lusitano, Pedro Tamen, seleccionada por Ruy Ventura; y reproducciones de una obra de José Luís Neto, destacado artista visual portugués. El número tuvo el patrocinio de la Câmara Municipal de Ponte de Sor. En el número 1 de la revista aparecieron poemas y ensayos de Álvaro Valverde, Amadeu Baptista, António Cândido Franco, António Carlos Cortez, C. Ronald, Fernando Aguiar, Francisco dos Santos, João Rasteiro, Jorge Melícias, Jorge Tamargo, José Emílio-Nelson, José Félix Duque, José Maria Cumbreno, Luís Arturo Guichard. Manuel Silva-Terra. Miguel Real, Nuno Matos Duarte, Pedro Martins, Rui Almeida, Ruy Ventura, Tiago Gomes y  Joana Koehler, Victor Sosa y, finalmente, Wilmar Silva de Andrade. Hay una antología del catalán Carles Riba («Elegias de Bierville») con traducción de Marta López Vilar. Completan el número ocho fotografías de David Infante. Este primer número tuvo el patrocinio de la Câmara Municipal de Aljezur.

Fonte:
http://salamancartvaldia.es/not/108703/llega-a-salamanca-lsquo-devir-rsquo-revista-iberoamericana-de-cultura-editada-en-portugal/



Luis Arturo Guichard, Nuno Matos Duarte e Ruy Ventura
(Faculdade de Filología de Salamanca, 1/3/2016)



JOSÉ KOZER
sobre uma antologia de Ruy Ventura 
editada em Espanha:

"Conciencia, espiritualidad, capacidad de penetrar, y al penetrar de interiorizar y poner de manifiesto en poemas eslabonados y consecutivos, con toda naturalidad, lo interiorizado. Cada palabra en su sitio, precisión, que es concisión, y esa limpidez, con sus estamentos y niveles forjando palimpsestos, devuelve al lector un sentido de delicadeza, de concreta situación, donde lo mejor del ser humano, si quiere, puede reflejarse, no como representación sino como sólida realidad. Viaje, fotografía, retrato, doisolución y recuperación de lo disuelto, cartas que son y no son, que se expiden y no hay que enviar, todo en función de la presencia de una primera palabra, Verbo y movimiento, belleza." (carta enviada a 10/7/2015)


DEVIR - Revista Ibero-Americana de Cultura
Lançamento no próximo dia 23 de Julho de 2015, pelas 18h30
na livraria Barata, na Avenida de Roma, em Lisboa.

Apresentação a cargo de Fernando J. B. Martinho
e intervenções de António Carlos Cortez (do conselho editorial) 
e dos directores (Ruy Ventura e Nuno Matos Duarte).

CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA!

A revista pode ser folheada aqui.

Página da revista:
http://devirrevista.wix.com/devir

Edição da Licorne (Évora)


SUMÁRIO

Álvaro Valverde (Espanha) - "Futuro" [poema]
Amadeu Baptista (Portugal) - "Sobre o futuro" [poema]
António Cândido Franco (Portugal) - "O amor que enlouquece" [ensaio]
António Carlos Cortez (Portugal) - "Oblivion" [poemas]
C. Ronald (Brasil) - "Foram rosas" [poema]
Fernando Aguiar (Portugal) - dois poemas visuais
Francisco dos Santos (Brasil) - dois poemas
João Rasteiro (Portugal) - "Acrónimo" [poemas]
Jorge Melícias (Portugal) - "El Penúltimo Enojo de Leopoldo María Panero" [ficção]
Jorge Tamargo (Cuba) - dois poemas
José Emílio-Nelson (Portugal) - "Comboio (anotações)" [poemas]
José Félix Duque (Portugal) - "Elogio de São José" [poema]
José María Cumbreño (Espanha) - "Escribir en línea recta" [poema]
Luis Arturo Guichard (México) - "Limbeños y enmediantes 4" [poema]
Manuel Silva-Terra (Portugal) - Do ciclo "Pastor de Pedras" [poema]
Miguel Real (Portugal) - "A Europa em 2054" [ficção]
Nuno Matos Duarte (Portugal) - "Um lugar para a arte" [ensaio]
Pedro Martins (Portugal) - "O Pensamento Teolibertário Português" [ensaio]
Rui Almeida (Portugal) - dois poemas
Ruy Ventura (Portugal) - "Realismo? Que realismo?" [ensaio]
Tiago Gomes e Joana Koehler (Portugal) - "Miss K" [poema]
Victor Sosa (Uruguai) - "Gladis recapitula" [poema]
Wilmar Silva de Andrade (Brasil) - dois poemas

Antologia do poeta catalão Carles Riba, traduzida por Marta López Vilar

Album fotográfico de David Infante



SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA

por Ruy Ventura

                                                                                             
Ruy Belo não gostava que a apreciação de Sebastião da Gama se ficasse pela atribuição do título de “Poeta da Arrábida”. Considerando o autor de Serra-Mãe um “poeta integral”, não podia vê-lo confinado a uma poesia localizada. Afigurava-se-lhe “pelo menos desorientador chamar a Sebastião da Gama o poeta da Arrábida e, não contente com isso, esfregar as mãos de alegria, como quem já disse tudo”. Embora considerasse que “A localização de um poeta no espaço é um elemento de interpretação da sua poesia”, não deixava no entanto de verificar os perigos desse veículo de entendimento, que bem se pode tornar num “obstáculo para a sua compreensão.” Para o poeta de Aquele Grande Rio Eufrates, se “Ver um poema é como ver um rosto. [...] Podemos saber que é belo, mas não sabemos porquê”, então “A localização de um poeta na sua paisagem servirá para ver essa paisagem. Não ao contrário.” Ruy Belo concordava decerto com um dos pensamentos de Pascal, esse filósofo tão caro a Sebastião da Gama: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. [...] pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.
De facto, a grandeza de uma obra literária não depende do espaço nem sequer da matéria, mas da maneira como o poeta conseguiu transfigurar o universo que o rodeou. Teixeira de Pascoaes – esse mestre maior do autor de Cabo da Boa Esperança – tinha razão quando afirmava que “A beleza das coisas não é inerte; insinua-se, em nós, como um segredo, e pretende assenhorear-se do lugar. Conquista-o e transfigura tudo, em volta dela. Derrama-se como a luz na sombra”. Permite assim ao ser humano um transporte que o torna ser luminoso, o transporte que o eleva de uma mera existência natural, instintiva, animal, até à liberdade e imortalidade da verdadeira vida.

         Sebastião, “poeta integral” e cristão assumido que não dispensava uma ética de responsabilidade em todos os momentos da sua vida, sem ter sido nunca um “poeta social”, considerava-se obrigado ao uso público da palavra, ao testemunho, na medida em que o poeta e o cidadão são duas faces do mesmo ser bifronte, inseparáveis num ser humano que aceitou a missão de construir pontes entre todas as dimensões da Vida e até da Existência, entre todos os seres que habitam o Universo, entre esses homens e mulheres e o Mundo que os rodeia. São reveladoras as palavras que inscreveu na sua tese de licenciatura: “[S]ó se é Poeta na medida em que se é homem, que o mínimo acto do homem-Poeta, o mais prosaico, o mais comezinho, o mais grosseiro, o mais em desacordo com o seu ideal, é tanto a massa da sua poesia como o seu voo mais arrebatado”.
         O poeta – quando o é de verdade – é sempre um instrumento de religação, logo um ser ético. Sebastião sabia, contudo, que os termos nem sempre se confundem, que o contrário nem sempre se verifica:
         “A indignação activa contra as injustiças da sociedade, o carinho pelos oprimidos, qualquer homem de bem os pode ter; mas isso não é suficiente para ser Poeta; isso, que num homem qualquer é tudo, é no Poeta só um pretexto. [...] Um legítimo Poeta que não tenha escrito senão contra as injustiças sociais seria um Poeta na mesma se não existissem essas injustiças, Então, seriam outros os temas; outros os pretextos.
         As suas palavras referiam-se, sobretudo, aos poetas portugueses de oitocentos (Herculano, Garrett, Junqueiro, Gomes Leal, Cesário)... Nas veias do seu pensamento corria no entanto o sangue mais universal das ideias defendidas pelos directores da revista presença, principalmente José Régio (o seu outro mestre, ao lado do poeta de Marános), defensores intransigentes da liberdade inteira dos criadores contra a submissão da Arte a ditames político-sociais, por mais justos que parecessem. As considerações tecidas por Sebastião da Gama não perderam ainda actualidade. O autor de Serra-Mãe não rejeitava a “poesia social”, como não recusava qualquer forma de expressão poética que se instituísse enquanto Arte em Liberdade. Aí reside também a sua postura ética. Sabia distinguir num poema, como leitor clarividente, as suas diferentes dimensões: de um lado o seu valor humano, que em geral conduz a uma maior realização comunicativa; do outro, o seu valor poético, artístico. Um poema escrito em linguagem obscura poderá conduzir, na sua opinião, a uma maior dificuldade no entendimento imediato, mas isso não significa para Sebastião da Gama que a Poesia não permaneça lá, “inviolada, esperando a vinda dos que a descubram”. Segundo escreveu, “O seu valor humano será menor e terá, por conseqüência, uma realização limitada. Mas isso não impede que o seu valor absoluto se não melindre.
         Seja qual for a Arrábida que nos mova, as injustiças que nos façam escrever, as paisagens que nos encantem, as figuras que nos interpelem, os sonhos e imagens que nos obriguem, os sentimentos que se estabeleçam, os pensamentos que queiram ver a luz da expressão – é preciso passarmos da representação à apresentação do mundo e dos seus seres, da observação à investigação da realidade, da prospecção dos vestígios de um tempo e de um espaço fugidios e irrepetíveis à sua escavação e interpretação. Apresentar, investigar, escavar e interpretar serão sempre os verbos que moverão o trabalho poético de quem escreve porque não pode deixar de criar em Arte. “Transfiguração” é a palavra-chave.
         É neste âmbito que se deve sublinhar a ligação entre Sebastião da Gama e a Arrábida. Nos poemas arrábidos de frei Agostinho da Cruz, essa guia espiritual do poeta de Vila Nogueira, percebe-se que toda a elevação espiritual se estrutura entre a Natureza/Mundo, a Palavra/Poesia e Deus. Interpretando-os e lendo a serra que conhecia como poucos, o autor de Itinerário Paralelo percebeu que o território estendido entre as duas ermidas da Memória (Campo, Cabo e Serra) só se pode entender em profundidade nessa tríade evidenciada na poesia do frade franciscano ou noutra, mais clara, que ele verteu nos títulos dos três livros que publicou na sua curta vida de vinte e sete anos. Campo Aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos nós existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma “pintura” que traga para junto de nós o Supremo Pintor; por isso o Cabo não é apenas fim da terra, mas início da esperança. Por fim, a montanha, Serra-Mãe vem dar relevo à matriz, ao tronco, à matéria gerada e geradora, mas sobretudo ao acidente natural que exige o movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus. Tal como escreveu na sua tese de licenciatura, “Poesia” e “Deus” são termos sinónimos, equivalentes.
         A Arrábida ofereceu aos dois poetas de Deus um espelho onde puderam ver as três virtudes teologais, como vias de salvação pessoal e do mundo: no campo, ou seja, na natureza e na sociedade, o exercício da Caridade, do Amor Divino transformado em Amor à criação, humana e natural; no cabo, o encontro com a Esperança, a boa Esperança, aquela que nos faz olhar o futuro enquanto emanação sagrada; e, por fim, na serra, o encontro com a Fé, nesse lugar onde se oferece a liberdade, o melhor manjar que, nas palavras de frei Agostinho, “Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”.
         Cada um de nós tem presente um Sebastião da Gama que lhe é próximo. Haverá quem guarde sobretudo a sua memória de Homem e de Cidadão (onde se inclui o seu desempenho como professor), outros privilegiarão as suas intuições pedagógicas, um pequeno grupo lembrará o seu cristianismo alegre e esclarecido, muitos recordam sobretudo o poeta e, entre estes, existirão aqueles que valorizam sobretudo o valor humano dos seus textos, enquanto um número indeterminado de leitores realçará a qualidade artística dos seus poemas, sobretudo daqueles que o farão permanecer no futuro, conservando a solidez do seu lugar no vasto território da Poesia Portuguesa do século XX. Todas as facetas deste ser poliédrico, exemplar, merecem a nossa admiração. O que não significa que passemos à canonização; a pior coisa que pode suceder a um escritor intenso como ele é não ser discutido, não ser constantemente avaliado nas suas atitudes e nas suas produções. Não tenhamos dúvidas: o futuro recordará Sebastião da Gama como Poeta, sobretudo como Poeta, mas isto não significa que uma devoção acrítica nos impeça de ver que a sua poesia foi um ser em crescimento, em maturação.
         Com Ruy Belo iniciei estas palavras, com Ruy Belo as termino. Se concordo com ele quando afirma que Sebastião da Gama “vinha melhorando surpreendentemente de livro para livro”, não sei até que ponto ficou “a meio da canção” (na medida em que uma parte substancial da sua obra em prosa e em verso ainda permanece inédita). Há no entanto uma convicção que partilho com o autor de Terra da Alegria:[...] não é que não tenha interesse a biografia, mas o que inequivocamente tem primordial importância são os textos, os positivos textos. Só de quem foi poeta na obra interessará saber se foi poeta na vida. [...] De resto o poeta sabia que assim era e desejava que da sua obra falassem ‘objectivamente, friamente’.” 

         Convosco partilharei a certeza de que Sebastião da Gama foi poeta na vida e na obra. Por isso aqui estamos. Por isso assumimos como dever preservar e divulgar, num olhar claro, todos as faces da sua memória.

Texto lido nas comemorações do 91º aniversário 
do nascimento de Sebastião da Gama
(11/4/2015, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão)



José Carlos Seabra Pereira (2015)
“Novos tempos de ‘a interminável preparação’ – Apontamentos sobre a poesia portuguesa no primeiro decénio do século XXI”
Cultura XXI – Ensaios, [Lisboa], Labirinto das Letras: 117 – 188.



["RUY VENTURA 
E A SUA POESIA PNEUMÁTICA E COSMOGÓNICA"]

         “Tal como o último quartel do século XX, o decénio inaugural do novo milénio apresenta-se-nos como tempo de basta produção no domínio da poesia lírica e como espaço de coexistência e cruzamento de tendências várias. Daí que impressione e atraia como campo de enorme pujança, mas também nos dificulte a visão panorâmica como labirinto de difícil cartografia. […]” (p. 117)

         “Quer pela diluição dos grupos programáticos e pelos vectores temático-formais que nesse contexto prevalecem na estruturação das obras mais representativas dos nossos dias, quer pela orientação que se nos depara nos poucos casos que mais se aproximam dos contornos de corrente estético-literária, o estado dominante parece não só pós-pessoano, mas também pós-anos 60 – no sentido de, sobre heranças de Sena e de algum Nemésio, de Herberto Helder e de Cesariny, adoptar por horizonte matricial o legado de Ruy Belo, do grupo do Cartucho (1976) e de uma prática poética já pós-moderna na desenvoltura descomplexada, no gosto do lúdico e do provocatório, nas conexões anglo-americanas e refracções da cena Pop.
         Mas esta perspectiva […] é apenas uma das hipóteses plausíveis para a leitura da nova poesia portuguesa na viragem do século.
         Com efeito, ela não parece dar conta cabalmente das motivações e dos efeitos das insofismáveis linhas entrecruzadas de persistência da PO-EX […] e da metamorfose da revolução surrealista […].
         Por outro lado, menos parece atender às fundas origens e às potencialidades de uma proposta programática alternativa ao imanentismo perceptivo e textual defluente do modelo propugnado nos anos 70/80 por Joaquim Manuel Magalhães. Referimo-nos a uma tentativa de integração superadora das linhagens surrealista e experimental numa poesia outra de conhecimento e de simbolização. Trata-se de uma poética que, pela imaginação analógica, pretende promover e figurar a convergência do subliminar com o suprarreal em energias espirituais e formas arquetípicas, se não sobrenaturais, de real supra-sensível. É uma poética propugnada em ensaio e ilustrada em cenas de teatro […] por António Cândido Franco […].
         Seja qual for o alcance que este combate espiritual e estético vier a conquistar, importa assinalar que, em diálogo intertextual com Herberto Helder e sua cifra Do Mundo, mais do que sobre o estamento neo-romântico de entre Nobre e Pascoaes, […] a correspondente antropologia literária vem sendo gradativamente cifrada no gnosticismo cristão de Ruy Ventura e sua poesia pneumática e cosmogónica de ‘súmula do mundo’ e ‘breviário pessoal de vozes’. Nessa poesia, a ‘contramina’, metáfora do inefável, emerge nas falas anónimas de Chave de Ignição (2009) e de Instrumentos de Sopro (2010), a caminho da tensão dramática de personagens e vozes, ancestrais e actuais (Contramina, 2012). Vozes, essas, inconfundíveis mas relacionáveis com iluminações oníricas e fantasmagóricas de vocações poéticas como a de José Rui Teixeira, que aliás como elas questionam, com subjacente espiritualidade cristã, a transitoriedade da vida.” (pp. 124 – 127)

         “[…] subscreveriam a demarcação do escapismo nostálgico e da evasão idealizante que algum dia tenta impor-se na obra de Fernando Pinto do Amaral […]. Cortando vazas à tentação da nostalgia, Manuel de Freitas interpela(-se) […]. Permanece o homo viator com um indefinido horizonte primordial: ‘recebendo e transportando a marca de cada passagem. / entregando em nossa morada / o verbo e a saudade do início’, como tão bem cifra Ruy Ventura num livro de 2003 com o título de sugestionadora simbologia numerológica, sete capítulos do mundo.” (pp. 160 – 161)

         “Propala-se uma perspectiva de continuidade bio-gráfica entre o poeta e o sujeito da enunciação, mas com fronteira incerta e fluida entre a estratégia de sugestão de referência autobiográficas (‘deícticas’, ‘logísticas’) e efeitos de auto-ficção, tão desenvoltamente gerados como desenvoltamente se exibem os mecanismos de engendramento do poema.
         […]
         Não faltam, pois, marcas frequentes e por vezes extensas de afirmação do ‘eu’, com processos vários e variamente confinantes de sugestão autobiográfica e de construção auto-ficcional. Mas […] também não faltam processos de autodistanciamento, de autodesdobramento e mesmo de alterização, com o regime discursivo a adoptar diferentes modalidades de dialogismo, ou a deslocar-se para fronteiras com a composição dramática – vg. hoje Contramina de Ruy Ventura –, ou a optar por figurações e elocuções alteronímicas.” (pp. 162 – 163)

         “[Nalguns] poetas, chega a hora de dizer precoce experiência de entrada no ‘Equinócio de Outono’ da vida e de ‘uma inclinação musical para a queda’ […]. Em idêntico sentido, a lírica diferente de um Manuel de Freitas ou de um Ruy Ventura tipifica a poesia daqueles – ‘portadores’ como Nemésio queria – a quem, numa Arquitectura do Silêncio, ‘não lhes falta / o olhar – basta-lhes / o horizonte’, mas que suspeitam que jamais chegarão ‘a ler, para além do sol, / o sol que o ilumina’. […]” (p. 168)


         “Recolhida, mas constitutiva e intersticialmente catalisadora em Ruy Ventura, a economia universal da Salvação com teleonomia de espiritualidade cristã comparece, mas mais velada que diferida, noutros poetas de assegurada representatividade epocal. […]” (p. 186)




Una brevísima nota biográfica:

El poeta portugués Ruy Ventura nació en Portalegre en 1973 y actualmente vive en Azeitão, donde enseña lengua y literatura portuguesa en un instituto de la localidad.
Su primer poemario, “Arquitectura de Silencio”, fue galardonado en 1997 con el Premio Revelación de la Asociación Portuguesa de Escritores. Desde entonces ha publicado otras obras como “Siete capítulos del mundo” y “Así se deja una casa” (ambos en 2003); “Llave de Ignición”, en 2009, “Instrumentos de Soplo” de 2010 y, en 2012, “Contramina”.
El año pasado, la obra del poeta cruza el atlántico y llega a Brasil con una antología llamada “Calle de la otra Calle” (“Rua da outra Rua”).
Es posible encontrar innumerables poemas suyos traducidos al inglés, alemán, francés y español.
Ruy Ventura, además de su actividad poética y docente, es también traductor,  investigador y ensayista con intereses tan diversos como la toponimia, el patrimonio histórico religioso, la poesía contemporánea y la literatura tradicional portuguesa. En el ámbito de la traducción hay que destacar su vinculación a Extremadura, siendo traductor de autores extremeños como Ángel Campos, Antonio Sáez o José María Cumbreño.

Algunas consideraciones personales sobre la lírica de Ruy Ventura:

En Ruy Ventura encontramos la raya, o, a lo mejor, dos rayas. Una serrana, desde la cuna, donde resuena España desde lo más alto de la Sierra de S. Mamede, y otra, también montañosa, que limita Portugal con su reflejo en el espejo del Atlántico, en una quietud casi monástica de la Sierra de Arrábida. 
Estas geografías inspiraron grandes nombres del lirismo portugués, como José Régio, desde su ventana de Portalegre, Sebastião da Gama en lo más alto de la península de Setúbal, o, incluso, mi tan estimado Bocage. Y, desde hace ya casi 20 años, Ruy Ventura es un dignísimo sucesor de este lirismo luso.
No es el tiempo cronológico el que pone las comas en la poética de Ruy Ventura, quizás algunos granos de arena o las ramas podadas de algunos momentos que llenan una casa, cuyos fondos son una especie de raíz que la sostienen en una arquitectura de silencio.
Desde el relieve encontramos una fuerza telúrica de montaña, escribiendo y reescribiendo su voz. El poeta Ruy Ventura persigue imágenes que caminan con la lucidez del vate que no cierra los ojos, que fotografía todo pero no encuentra nada para revelar. ¿Y por qué habrá que revelar la mirada?
Esa es la gran diferencia entre literatura y poesía como Ruy Ventura la concibe en su obra. Al optar por la prosa, el autor cuenta lo poético que encuentra en su universo con un lenguaje que se deja deslumbrar por su propio movimiento, dejando, incluso, herirse por sus imágenes.

¿Piedra o sangre? ¿Sangre o tinta? ¿Tinta o piedra? El poeta brasileño, que tanto cantó la aridez de su Sertão, como la fertilidad de Andalucia, João Cabral de Melo Neto nos educó por la piedra, sin embargo Ruy Ventura nos enseña que la piedra acompaña la forma del mundo, en su ausencia de voz, en la dureza que la aparta de ser tierra.
Al guardar en los ojos las semillas, el poeta logra abandonar la brevedad y cadenas que pueden ser las raíces de uno, obturando, siempre, en gestos impregnados de nitrato de plata, la sombra de su original voz poética.
Cerré las tapas que ocultan esta breve antología con la sensación de haber peregrinado por la montaña para visitar un santuario, seguro de que el verbo orar no es antagónico al laborar del poeta. Eso es más que evidente en la poética de Ruy Ventura cuyos poemas son un medio y la reflexión un fin. Como él mismo enuncia “hay, sin embargo, hechos, vestigios, trozos de papel, facturas que la escritura nunca descuidada fue a dejar entre las páginas de un desierto…”

En la lírica de Ventura, cuyo nombre nos podría resumir su obra, con la ayuda del diccionario de la RAE, encontramos felicidad, suerte, contingencia o casualidad, como también el riesgo, el peligro, o, por antonomasia, el suceso o lance extraño que procede de la actividad poética.  
En las palabras de Ventura sabemos que del grito a la nada se cruza por una tabla de madera que une los dos lados del andamio y nos quedamos con la certeza que si queremos intentar, de alguna manera, traer la idea de Dios a nuestro pensamiento, simplemente, estimados lectores, como dice el poeta que tengo el placer de presentar, hay que tener cojones, o, como se dice en portugués: “ter colhões”.  

LUÍS LEAL
(Março de 2015)
(Foto de Antonio Sáez Delgado)
UM POEMA DE "SETE CAPÍTULOS DO MUNDO"
TRADUZIDO PARA ESPANHOL 



esta sala fue antaño un balcón.
de aquel tiempo quedaron una lámpara
una persiana para siempre abierta,
una ventana y un arriate
donde nacen y crecen flores de plástico.
ciertamente:
mi presencia no existía todavía.
aunque esta edad sobrepase la del aluminio,
que separa el jardín
y la casa

Ruy Ventura


(Traduzido por Pedro Luis Cuadrado)


[ESTA SALA FOI OUTRORA UMA VARANDA]


esta sala foi outrora uma varanda.
desse tempo ficaram um candeeiro,
uma persiana para sempre aberta,
uma janela e um alegrete
onde nascem e crescem flores de plástico.
decerto:
a minha presença não existia ainda.
embora esta idade ultrapasse a do alumínio,
separando o jardim
e a casa.


RADIOGRAFIA DE RUY VENTURA

por João Francisco Chagas

            1. Ruy Ventura amplia e entrelaça nos seus poemas as heranças da poesia metafísica (Gerard Manley Hopkins, T. S. Eliot e Dylan Thomas), do hermetismo italiano (Eugenio Montale) e do neo-surrealismo (tal como foi pensado e praticado por Philip Lamantia e difundido por Andrew Joron). Matizam esta trama a melhor parte da grande poesia religiosa, a contenção explosiva de Emily Dickinson, o transcendentalismo de Teixeira de Pascoaes e do mais secreto Fernando Pessoa, os choques de altíssima tensão provenientes da obra do “maior poeta em prosa da língua portuguesa” (Raul Brandão) e toda a discreta e sublime tradição da poesia obscura (que atingiu em Portugal o seu cume na obra de Fiama Hasse Pais Brandão e fora de portas na introversão enigmática proposta por Paul Celan), bem como a “esquelética robustez” dos poemas de Carlos de Oliveira e Nuno Guimarães. Todos os homens possuem uma genealogia – e a dos poetas nunca se limitará aos oito bisavós de que ninguém se livra.

            2. Não quero reinventar a roda, apresentando ex nihilo os traços dominantes desta poesia; se o fizesse, correria o risco de torná-la quadrada, impossibilitando-lhe o movimento. Recorro, por isso, aos ensaios de Levi Condinho, António Carlos Cortez, Pedro Martins e António Cândido Franco, entre os vários possíveis, onde essa definição já foi em grande parte exposta. Condinho fala em “elementarismo” (“atenção devota às coisas do mundo”) e em “religação”; Cortez aponta uma “visão imaginante” em que “os referentes como que se revelam na sua essencialidade”; Martins regista “uma visão poliédrica onde se espelha o naufrágio do mundo”; Franco, por seu lado, salienta a urdidura de um “real superior”, reconduzindo “a palavra à sua condição cosmogónica primordial”, nisto sendo um contraponto da “multidão informe de artefactos inoperantes que por aí se lêem e que resultam num afunilamento empobrecedor da ideia de real”. Não viram mal, embora não tenham visto tudo… porque tal não é possível ao leitor humano seja de que texto for.

            3. A poesia do autor de Rua da Outra Rua, apesar da sua linguagem simbólica, figurativa e exigente, não se pode dizer abstracta nem árida. É, de algum modo, catalisada pela visualidade, pela iconicidade, pela contenção emblemática. Daí os enigmas que a povoam, indicando ao leitor inquieto e, por vezes, desorientado, algo de mais alto e misterioso, a que só se acede subindo a escada da montanha. Será muito útil ao exegeta que queira tornar-se hermeneuta dos seus poemas a contemplação/meditação dos desenhos ofuscantes de Domingos António Sequeira, dos quadros metafísicos de Giorgio De Chirico, das pinturas musicais de Ciurlionis, das abstracções místicas de Manuel D’ Assumpção, do sobrenaturalismo de António Dacosta. O melhor acompanhamento para essa tarefa estará nas composições de Olivier Messiaen. (Ultimamente, a poesia de Ruy Ventura parece ter encontrado nas fotografias de José Luís Neto algumas das suas irmãs colaças.)

            4. Trata-se de uma obra sem expansões, contida, elíptica até. Como se “a medo” escrevesse e falasse, nunca se livrando de um sentimento de temor perante algo indefinido e numinoso. Talvez, por isso, cubra o seu rosto textual e se exprima por meias-palavras, por frases cortadas, meio-ditas. Parece ser esse o único modo que encontrou para dar voz a uma presença-ausência luminosa (geradora de uma theoria) e para, no reverso, exprimir a sua constante psicomaquia com um mundo tenebroso (que parece obrigá-lo a uma sucessão de catábases e anábases).

        5. Ruy Ventura alterou o seu nome, pondo nele um Y que, segundo tem afirmado, é homenagem a Ruy Belo e a Ruy Cinatti, “dois cristãos católicos, como ele”. Não creio que aí esteja, contudo, toda a verdade, anagogicamente falando. O Y é a letra inicial, em hebraico, do tetragrama sagrado (YHWH) e do nome de Cristo (Yoshua). Creio que, nesse pormenor paratextual, mostra ele de forma velada (como é seu hábito) uma filiação judaico-cristã, em cujo cerne se encontra a memória, entendida enquanto húmus, semente e escrita de uma religiosidade que procura, sobretudo, o futuro e, nessa síntese, demanda o Amor nas suas mais altas expressões naturais, sociais e sobrenaturais.