SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA

por Ruy Ventura

                                                                                             
Ruy Belo não gostava que a apreciação de Sebastião da Gama se ficasse pela atribuição do título de “Poeta da Arrábida”. Considerando o autor de Serra-Mãe um “poeta integral”, não podia vê-lo confinado a uma poesia localizada. Afigurava-se-lhe “pelo menos desorientador chamar a Sebastião da Gama o poeta da Arrábida e, não contente com isso, esfregar as mãos de alegria, como quem já disse tudo”. Embora considerasse que “A localização de um poeta no espaço é um elemento de interpretação da sua poesia”, não deixava no entanto de verificar os perigos desse veículo de entendimento, que bem se pode tornar num “obstáculo para a sua compreensão.” Para o poeta de Aquele Grande Rio Eufrates, se “Ver um poema é como ver um rosto. [...] Podemos saber que é belo, mas não sabemos porquê”, então “A localização de um poeta na sua paisagem servirá para ver essa paisagem. Não ao contrário.” Ruy Belo concordava decerto com um dos pensamentos de Pascal, esse filósofo tão caro a Sebastião da Gama: “Não é do espaço que eu devo esperar a minha dignidade, mas do acerto do meu pensamento. [...] pelo espaço, o universo abarca-me e submerge-me como um ponto. Pelo pensamento, abarco-o eu.
De facto, a grandeza de uma obra literária não depende do espaço nem sequer da matéria, mas da maneira como o poeta conseguiu transfigurar o universo que o rodeou. Teixeira de Pascoaes – esse mestre maior do autor de Cabo da Boa Esperança – tinha razão quando afirmava que “A beleza das coisas não é inerte; insinua-se, em nós, como um segredo, e pretende assenhorear-se do lugar. Conquista-o e transfigura tudo, em volta dela. Derrama-se como a luz na sombra”. Permite assim ao ser humano um transporte que o torna ser luminoso, o transporte que o eleva de uma mera existência natural, instintiva, animal, até à liberdade e imortalidade da verdadeira vida.

         Sebastião, “poeta integral” e cristão assumido que não dispensava uma ética de responsabilidade em todos os momentos da sua vida, sem ter sido nunca um “poeta social”, considerava-se obrigado ao uso público da palavra, ao testemunho, na medida em que o poeta e o cidadão são duas faces do mesmo ser bifronte, inseparáveis num ser humano que aceitou a missão de construir pontes entre todas as dimensões da Vida e até da Existência, entre todos os seres que habitam o Universo, entre esses homens e mulheres e o Mundo que os rodeia. São reveladoras as palavras que inscreveu na sua tese de licenciatura: “[S]ó se é Poeta na medida em que se é homem, que o mínimo acto do homem-Poeta, o mais prosaico, o mais comezinho, o mais grosseiro, o mais em desacordo com o seu ideal, é tanto a massa da sua poesia como o seu voo mais arrebatado”.
         O poeta – quando o é de verdade – é sempre um instrumento de religação, logo um ser ético. Sebastião sabia, contudo, que os termos nem sempre se confundem, que o contrário nem sempre se verifica:
         “A indignação activa contra as injustiças da sociedade, o carinho pelos oprimidos, qualquer homem de bem os pode ter; mas isso não é suficiente para ser Poeta; isso, que num homem qualquer é tudo, é no Poeta só um pretexto. [...] Um legítimo Poeta que não tenha escrito senão contra as injustiças sociais seria um Poeta na mesma se não existissem essas injustiças, Então, seriam outros os temas; outros os pretextos.
         As suas palavras referiam-se, sobretudo, aos poetas portugueses de oitocentos (Herculano, Garrett, Junqueiro, Gomes Leal, Cesário)... Nas veias do seu pensamento corria no entanto o sangue mais universal das ideias defendidas pelos directores da revista presença, principalmente José Régio (o seu outro mestre, ao lado do poeta de Marános), defensores intransigentes da liberdade inteira dos criadores contra a submissão da Arte a ditames político-sociais, por mais justos que parecessem. As considerações tecidas por Sebastião da Gama não perderam ainda actualidade. O autor de Serra-Mãe não rejeitava a “poesia social”, como não recusava qualquer forma de expressão poética que se instituísse enquanto Arte em Liberdade. Aí reside também a sua postura ética. Sabia distinguir num poema, como leitor clarividente, as suas diferentes dimensões: de um lado o seu valor humano, que em geral conduz a uma maior realização comunicativa; do outro, o seu valor poético, artístico. Um poema escrito em linguagem obscura poderá conduzir, na sua opinião, a uma maior dificuldade no entendimento imediato, mas isso não significa para Sebastião da Gama que a Poesia não permaneça lá, “inviolada, esperando a vinda dos que a descubram”. Segundo escreveu, “O seu valor humano será menor e terá, por conseqüência, uma realização limitada. Mas isso não impede que o seu valor absoluto se não melindre.
         Seja qual for a Arrábida que nos mova, as injustiças que nos façam escrever, as paisagens que nos encantem, as figuras que nos interpelem, os sonhos e imagens que nos obriguem, os sentimentos que se estabeleçam, os pensamentos que queiram ver a luz da expressão – é preciso passarmos da representação à apresentação do mundo e dos seus seres, da observação à investigação da realidade, da prospecção dos vestígios de um tempo e de um espaço fugidios e irrepetíveis à sua escavação e interpretação. Apresentar, investigar, escavar e interpretar serão sempre os verbos que moverão o trabalho poético de quem escreve porque não pode deixar de criar em Arte. “Transfiguração” é a palavra-chave.
         É neste âmbito que se deve sublinhar a ligação entre Sebastião da Gama e a Arrábida. Nos poemas arrábidos de frei Agostinho da Cruz, essa guia espiritual do poeta de Vila Nogueira, percebe-se que toda a elevação espiritual se estrutura entre a Natureza/Mundo, a Palavra/Poesia e Deus. Interpretando-os e lendo a serra que conhecia como poucos, o autor de Itinerário Paralelo percebeu que o território estendido entre as duas ermidas da Memória (Campo, Cabo e Serra) só se pode entender em profundidade nessa tríade evidenciada na poesia do frade franciscano ou noutra, mais clara, que ele verteu nos títulos dos três livros que publicou na sua curta vida de vinte e sete anos. Campo Aberto corresponde à Natureza, à criação, mas também ao mundo habitado e social, onde todos nós existimos e tentamos viver, abrindo-nos e esvaziando-nos das contingências, afastando-nos dos instintos e da corrupção. Cabo da Boa Esperança exprime a finisterra, a cessação de um mundo natural, por obra da palavra e da poesia, ou seja, pela acção criativa colaborante com Deus na produção de uma “pintura” que traga para junto de nós o Supremo Pintor; por isso o Cabo não é apenas fim da terra, mas início da esperança. Por fim, a montanha, Serra-Mãe vem dar relevo à matriz, ao tronco, à matéria gerada e geradora, mas sobretudo ao acidente natural que exige o movimento de assunção, incitando os seres humanos a subir a escada do Paraíso e a aproximar-se de Deus. Tal como escreveu na sua tese de licenciatura, “Poesia” e “Deus” são termos sinónimos, equivalentes.
         A Arrábida ofereceu aos dois poetas de Deus um espelho onde puderam ver as três virtudes teologais, como vias de salvação pessoal e do mundo: no campo, ou seja, na natureza e na sociedade, o exercício da Caridade, do Amor Divino transformado em Amor à criação, humana e natural; no cabo, o encontro com a Esperança, a boa Esperança, aquela que nos faz olhar o futuro enquanto emanação sagrada; e, por fim, na serra, o encontro com a Fé, nesse lugar onde se oferece a liberdade, o melhor manjar que, nas palavras de frei Agostinho, “Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”.
         Cada um de nós tem presente um Sebastião da Gama que lhe é próximo. Haverá quem guarde sobretudo a sua memória de Homem e de Cidadão (onde se inclui o seu desempenho como professor), outros privilegiarão as suas intuições pedagógicas, um pequeno grupo lembrará o seu cristianismo alegre e esclarecido, muitos recordam sobretudo o poeta e, entre estes, existirão aqueles que valorizam sobretudo o valor humano dos seus textos, enquanto um número indeterminado de leitores realçará a qualidade artística dos seus poemas, sobretudo daqueles que o farão permanecer no futuro, conservando a solidez do seu lugar no vasto território da Poesia Portuguesa do século XX. Todas as facetas deste ser poliédrico, exemplar, merecem a nossa admiração. O que não significa que passemos à canonização; a pior coisa que pode suceder a um escritor intenso como ele é não ser discutido, não ser constantemente avaliado nas suas atitudes e nas suas produções. Não tenhamos dúvidas: o futuro recordará Sebastião da Gama como Poeta, sobretudo como Poeta, mas isto não significa que uma devoção acrítica nos impeça de ver que a sua poesia foi um ser em crescimento, em maturação.
         Com Ruy Belo iniciei estas palavras, com Ruy Belo as termino. Se concordo com ele quando afirma que Sebastião da Gama “vinha melhorando surpreendentemente de livro para livro”, não sei até que ponto ficou “a meio da canção” (na medida em que uma parte substancial da sua obra em prosa e em verso ainda permanece inédita). Há no entanto uma convicção que partilho com o autor de Terra da Alegria:[...] não é que não tenha interesse a biografia, mas o que inequivocamente tem primordial importância são os textos, os positivos textos. Só de quem foi poeta na obra interessará saber se foi poeta na vida. [...] De resto o poeta sabia que assim era e desejava que da sua obra falassem ‘objectivamente, friamente’.” 

         Convosco partilharei a certeza de que Sebastião da Gama foi poeta na vida e na obra. Por isso aqui estamos. Por isso assumimos como dever preservar e divulgar, num olhar claro, todos as faces da sua memória.

Texto lido nas comemorações do 91º aniversário 
do nascimento de Sebastião da Gama
(11/4/2015, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em Vila Nogueira de Azeitão)



José Carlos Seabra Pereira (2015)
“Novos tempos de ‘a interminável preparação’ – Apontamentos sobre a poesia portuguesa no primeiro decénio do século XXI”
Cultura XXI – Ensaios, [Lisboa], Labirinto das Letras: 117 – 188.



["RUY VENTURA 
E A SUA POESIA PNEUMÁTICA E COSMOGÓNICA"]

         “Tal como o último quartel do século XX, o decénio inaugural do novo milénio apresenta-se-nos como tempo de basta produção no domínio da poesia lírica e como espaço de coexistência e cruzamento de tendências várias. Daí que impressione e atraia como campo de enorme pujança, mas também nos dificulte a visão panorâmica como labirinto de difícil cartografia. […]” (p. 117)

         “Quer pela diluição dos grupos programáticos e pelos vectores temático-formais que nesse contexto prevalecem na estruturação das obras mais representativas dos nossos dias, quer pela orientação que se nos depara nos poucos casos que mais se aproximam dos contornos de corrente estético-literária, o estado dominante parece não só pós-pessoano, mas também pós-anos 60 – no sentido de, sobre heranças de Sena e de algum Nemésio, de Herberto Helder e de Cesariny, adoptar por horizonte matricial o legado de Ruy Belo, do grupo do Cartucho (1976) e de uma prática poética já pós-moderna na desenvoltura descomplexada, no gosto do lúdico e do provocatório, nas conexões anglo-americanas e refracções da cena Pop.
         Mas esta perspectiva […] é apenas uma das hipóteses plausíveis para a leitura da nova poesia portuguesa na viragem do século.
         Com efeito, ela não parece dar conta cabalmente das motivações e dos efeitos das insofismáveis linhas entrecruzadas de persistência da PO-EX […] e da metamorfose da revolução surrealista […].
         Por outro lado, menos parece atender às fundas origens e às potencialidades de uma proposta programática alternativa ao imanentismo perceptivo e textual defluente do modelo propugnado nos anos 70/80 por Joaquim Manuel Magalhães. Referimo-nos a uma tentativa de integração superadora das linhagens surrealista e experimental numa poesia outra de conhecimento e de simbolização. Trata-se de uma poética que, pela imaginação analógica, pretende promover e figurar a convergência do subliminar com o suprarreal em energias espirituais e formas arquetípicas, se não sobrenaturais, de real supra-sensível. É uma poética propugnada em ensaio e ilustrada em cenas de teatro […] por António Cândido Franco […].
         Seja qual for o alcance que este combate espiritual e estético vier a conquistar, importa assinalar que, em diálogo intertextual com Herberto Helder e sua cifra Do Mundo, mais do que sobre o estamento neo-romântico de entre Nobre e Pascoaes, […] a correspondente antropologia literária vem sendo gradativamente cifrada no gnosticismo cristão de Ruy Ventura e sua poesia pneumática e cosmogónica de ‘súmula do mundo’ e ‘breviário pessoal de vozes’. Nessa poesia, a ‘contramina’, metáfora do inefável, emerge nas falas anónimas de Chave de Ignição (2009) e de Instrumentos de Sopro (2010), a caminho da tensão dramática de personagens e vozes, ancestrais e actuais (Contramina, 2012). Vozes, essas, inconfundíveis mas relacionáveis com iluminações oníricas e fantasmagóricas de vocações poéticas como a de José Rui Teixeira, que aliás como elas questionam, com subjacente espiritualidade cristã, a transitoriedade da vida.” (pp. 124 – 127)

         “[…] subscreveriam a demarcação do escapismo nostálgico e da evasão idealizante que algum dia tenta impor-se na obra de Fernando Pinto do Amaral […]. Cortando vazas à tentação da nostalgia, Manuel de Freitas interpela(-se) […]. Permanece o homo viator com um indefinido horizonte primordial: ‘recebendo e transportando a marca de cada passagem. / entregando em nossa morada / o verbo e a saudade do início’, como tão bem cifra Ruy Ventura num livro de 2003 com o título de sugestionadora simbologia numerológica, sete capítulos do mundo.” (pp. 160 – 161)

         “Propala-se uma perspectiva de continuidade bio-gráfica entre o poeta e o sujeito da enunciação, mas com fronteira incerta e fluida entre a estratégia de sugestão de referência autobiográficas (‘deícticas’, ‘logísticas’) e efeitos de auto-ficção, tão desenvoltamente gerados como desenvoltamente se exibem os mecanismos de engendramento do poema.
         […]
         Não faltam, pois, marcas frequentes e por vezes extensas de afirmação do ‘eu’, com processos vários e variamente confinantes de sugestão autobiográfica e de construção auto-ficcional. Mas […] também não faltam processos de autodistanciamento, de autodesdobramento e mesmo de alterização, com o regime discursivo a adoptar diferentes modalidades de dialogismo, ou a deslocar-se para fronteiras com a composição dramática – vg. hoje Contramina de Ruy Ventura –, ou a optar por figurações e elocuções alteronímicas.” (pp. 162 – 163)

         “[Nalguns] poetas, chega a hora de dizer precoce experiência de entrada no ‘Equinócio de Outono’ da vida e de ‘uma inclinação musical para a queda’ […]. Em idêntico sentido, a lírica diferente de um Manuel de Freitas ou de um Ruy Ventura tipifica a poesia daqueles – ‘portadores’ como Nemésio queria – a quem, numa Arquitectura do Silêncio, ‘não lhes falta / o olhar – basta-lhes / o horizonte’, mas que suspeitam que jamais chegarão ‘a ler, para além do sol, / o sol que o ilumina’. […]” (p. 168)


         “Recolhida, mas constitutiva e intersticialmente catalisadora em Ruy Ventura, a economia universal da Salvação com teleonomia de espiritualidade cristã comparece, mas mais velada que diferida, noutros poetas de assegurada representatividade epocal. […]” (p. 186)




Una brevísima nota biográfica:

El poeta portugués Ruy Ventura nació en Portalegre en 1973 y actualmente vive en Azeitão, donde enseña lengua y literatura portuguesa en un instituto de la localidad.
Su primer poemario, “Arquitectura de Silencio”, fue galardonado en 1997 con el Premio Revelación de la Asociación Portuguesa de Escritores. Desde entonces ha publicado otras obras como “Siete capítulos del mundo” y “Así se deja una casa” (ambos en 2003); “Llave de Ignición”, en 2009, “Instrumentos de Soplo” de 2010 y, en 2012, “Contramina”.
El año pasado, la obra del poeta cruza el atlántico y llega a Brasil con una antología llamada “Calle de la otra Calle” (“Rua da outra Rua”).
Es posible encontrar innumerables poemas suyos traducidos al inglés, alemán, francés y español.
Ruy Ventura, además de su actividad poética y docente, es también traductor,  investigador y ensayista con intereses tan diversos como la toponimia, el patrimonio histórico religioso, la poesía contemporánea y la literatura tradicional portuguesa. En el ámbito de la traducción hay que destacar su vinculación a Extremadura, siendo traductor de autores extremeños como Ángel Campos, Antonio Sáez o José María Cumbreño.

Algunas consideraciones personales sobre la lírica de Ruy Ventura:

En Ruy Ventura encontramos la raya, o, a lo mejor, dos rayas. Una serrana, desde la cuna, donde resuena España desde lo más alto de la Sierra de S. Mamede, y otra, también montañosa, que limita Portugal con su reflejo en el espejo del Atlántico, en una quietud casi monástica de la Sierra de Arrábida. 
Estas geografías inspiraron grandes nombres del lirismo portugués, como José Régio, desde su ventana de Portalegre, Sebastião da Gama en lo más alto de la península de Setúbal, o, incluso, mi tan estimado Bocage. Y, desde hace ya casi 20 años, Ruy Ventura es un dignísimo sucesor de este lirismo luso.
No es el tiempo cronológico el que pone las comas en la poética de Ruy Ventura, quizás algunos granos de arena o las ramas podadas de algunos momentos que llenan una casa, cuyos fondos son una especie de raíz que la sostienen en una arquitectura de silencio.
Desde el relieve encontramos una fuerza telúrica de montaña, escribiendo y reescribiendo su voz. El poeta Ruy Ventura persigue imágenes que caminan con la lucidez del vate que no cierra los ojos, que fotografía todo pero no encuentra nada para revelar. ¿Y por qué habrá que revelar la mirada?
Esa es la gran diferencia entre literatura y poesía como Ruy Ventura la concibe en su obra. Al optar por la prosa, el autor cuenta lo poético que encuentra en su universo con un lenguaje que se deja deslumbrar por su propio movimiento, dejando, incluso, herirse por sus imágenes.

¿Piedra o sangre? ¿Sangre o tinta? ¿Tinta o piedra? El poeta brasileño, que tanto cantó la aridez de su Sertão, como la fertilidad de Andalucia, João Cabral de Melo Neto nos educó por la piedra, sin embargo Ruy Ventura nos enseña que la piedra acompaña la forma del mundo, en su ausencia de voz, en la dureza que la aparta de ser tierra.
Al guardar en los ojos las semillas, el poeta logra abandonar la brevedad y cadenas que pueden ser las raíces de uno, obturando, siempre, en gestos impregnados de nitrato de plata, la sombra de su original voz poética.
Cerré las tapas que ocultan esta breve antología con la sensación de haber peregrinado por la montaña para visitar un santuario, seguro de que el verbo orar no es antagónico al laborar del poeta. Eso es más que evidente en la poética de Ruy Ventura cuyos poemas son un medio y la reflexión un fin. Como él mismo enuncia “hay, sin embargo, hechos, vestigios, trozos de papel, facturas que la escritura nunca descuidada fue a dejar entre las páginas de un desierto…”

En la lírica de Ventura, cuyo nombre nos podría resumir su obra, con la ayuda del diccionario de la RAE, encontramos felicidad, suerte, contingencia o casualidad, como también el riesgo, el peligro, o, por antonomasia, el suceso o lance extraño que procede de la actividad poética.  
En las palabras de Ventura sabemos que del grito a la nada se cruza por una tabla de madera que une los dos lados del andamio y nos quedamos con la certeza que si queremos intentar, de alguna manera, traer la idea de Dios a nuestro pensamiento, simplemente, estimados lectores, como dice el poeta que tengo el placer de presentar, hay que tener cojones, o, como se dice en portugués: “ter colhões”.  

LUÍS LEAL
(Março de 2015)
(Foto de Antonio Sáez Delgado)
UM POEMA DE "SETE CAPÍTULOS DO MUNDO"
TRADUZIDO PARA ESPANHOL 



esta sala fue antaño un balcón.
de aquel tiempo quedaron una lámpara
una persiana para siempre abierta,
una ventana y un arriate
donde nacen y crecen flores de plástico.
ciertamente:
mi presencia no existía todavía.
aunque esta edad sobrepase la del aluminio,
que separa el jardín
y la casa

Ruy Ventura


(Traduzido por Pedro Luis Cuadrado)


[ESTA SALA FOI OUTRORA UMA VARANDA]


esta sala foi outrora uma varanda.
desse tempo ficaram um candeeiro,
uma persiana para sempre aberta,
uma janela e um alegrete
onde nascem e crescem flores de plástico.
decerto:
a minha presença não existia ainda.
embora esta idade ultrapasse a do alumínio,
separando o jardim
e a casa.


RADIOGRAFIA DE RUY VENTURA

por João Francisco Chagas

            1. Ruy Ventura amplia e entrelaça nos seus poemas as heranças da poesia metafísica (Gerard Manley Hopkins, T. S. Eliot e Dylan Thomas), do hermetismo italiano (Eugenio Montale) e do neo-surrealismo (tal como foi pensado e praticado por Philip Lamantia e difundido por Andrew Joron). Matizam esta trama a melhor parte da grande poesia religiosa, a contenção explosiva de Emily Dickinson, o transcendentalismo de Teixeira de Pascoaes e do mais secreto Fernando Pessoa, os choques de altíssima tensão provenientes da obra do “maior poeta em prosa da língua portuguesa” (Raul Brandão) e toda a discreta e sublime tradição da poesia obscura (que atingiu em Portugal o seu cume na obra de Fiama Hasse Pais Brandão e fora de portas na introversão enigmática proposta por Paul Celan), bem como a “esquelética robustez” dos poemas de Carlos de Oliveira e Nuno Guimarães. Todos os homens possuem uma genealogia – e a dos poetas nunca se limitará aos oito bisavós de que ninguém se livra.

            2. Não quero reinventar a roda, apresentando ex nihilo os traços dominantes desta poesia; se o fizesse, correria o risco de torná-la quadrada, impossibilitando-lhe o movimento. Recorro, por isso, aos ensaios de Levi Condinho, António Carlos Cortez, Pedro Martins e António Cândido Franco, entre os vários possíveis, onde essa definição já foi em grande parte exposta. Condinho fala em “elementarismo” (“atenção devota às coisas do mundo”) e em “religação”; Cortez aponta uma “visão imaginante” em que “os referentes como que se revelam na sua essencialidade”; Martins regista “uma visão poliédrica onde se espelha o naufrágio do mundo”; Franco, por seu lado, salienta a urdidura de um “real superior”, reconduzindo “a palavra à sua condição cosmogónica primordial”, nisto sendo um contraponto da “multidão informe de artefactos inoperantes que por aí se lêem e que resultam num afunilamento empobrecedor da ideia de real”. Não viram mal, embora não tenham visto tudo… porque tal não é possível ao leitor humano seja de que texto for.

            3. A poesia do autor de Rua da Outra Rua, apesar da sua linguagem simbólica, figurativa e exigente, não se pode dizer abstracta nem árida. É, de algum modo, catalisada pela visualidade, pela iconicidade, pela contenção emblemática. Daí os enigmas que a povoam, indicando ao leitor inquieto e, por vezes, desorientado, algo de mais alto e misterioso, a que só se acede subindo a escada da montanha. Será muito útil ao exegeta que queira tornar-se hermeneuta dos seus poemas a contemplação/meditação dos desenhos ofuscantes de Domingos António Sequeira, dos quadros metafísicos de Giorgio De Chirico, das pinturas musicais de Ciurlionis, das abstracções místicas de Manuel D’ Assumpção, do sobrenaturalismo de António Dacosta. O melhor acompanhamento para essa tarefa estará nas composições de Olivier Messiaen. (Ultimamente, a poesia de Ruy Ventura parece ter encontrado nas fotografias de José Luís Neto algumas das suas irmãs colaças.)

            4. Trata-se de uma obra sem expansões, contida, elíptica até. Como se “a medo” escrevesse e falasse, nunca se livrando de um sentimento de temor perante algo indefinido e numinoso. Talvez, por isso, cubra o seu rosto textual e se exprima por meias-palavras, por frases cortadas, meio-ditas. Parece ser esse o único modo que encontrou para dar voz a uma presença-ausência luminosa (geradora de uma theoria) e para, no reverso, exprimir a sua constante psicomaquia com um mundo tenebroso (que parece obrigá-lo a uma sucessão de catábases e anábases).

        5. Ruy Ventura alterou o seu nome, pondo nele um Y que, segundo tem afirmado, é homenagem a Ruy Belo e a Ruy Cinatti, “dois cristãos heterodoxos, como ele”. Não creio que aí esteja, contudo, toda a verdade, anagogicamente falando. O Y é a letra inicial, em hebraico, do tetragrama sagrado (YHWH) e do nome de Cristo (Yoshua). Creio que, nesse pormenor paratextual, mostra ele de forma velada (como é seu hábito) uma filiação judaico-cristã, em cujo cerne se encontra a memória, entendida enquanto húmus, semente e escrita de uma religiosidade que procura, sobretudo, o futuro e, nessa síntese, demanda o Amor nas suas mais altas expressões naturais, sociais e sobrenaturais.



Entrevista a Ruy Ventura

«A nossa mais digna tarefa
será sempre descobrir, imaginar e interpretar.»

 
Ruy Ventura (1973) nasceu em Portalegre e vive em Azeitão (Portugal) sendo professor de Português na escola local. Os seus poemas estão traduzidos em alemão, francês, inglês e espanhol. A sua poesia está publicada em vários países (México, E.U.A., Brasil, Alemanha, Espanha e Portugal). Além da poesia, os seus interesses como investigador contemplam áreas tão diversas como a toponímia, o património religioso, a poesia contemporânea e a literatura tradicional portuguesa. O seu primeiro livro (Arquitectura do Silêncio) recebeu em 1997 o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores e foi editado em 2000. Publicou entretanto outros livros: Sete capítulos do mundo (2003), Assim se deixa uma casa (2003), Chave de ignição (2009), Instrumentos de sopro (2010) e Contramina (2012). Ao fim de ver publicados nove livros de poemas, surge agora com uma antologia publicada no Brasil (Lumme Editor, de São Paulo) em 2014. Trata-se de Rua da Outra Rua.


Esta Rua da Outra Rua existe mesmo ou é uma criação a propósito da antologia?
Como tudo quanto surge pela via da poesia, um título é simultaneamente imanência e transcendência, matéria e pensamento. A “Rua da Outra Rua” existe mesmo. Situa-se na pequena aldeia onde fui criado – Carreiras, a sete quilómetros de Castelo de Vide. Embora hoje o nome se atribua apenas a uma pequena travessa, até aos anos trinta do século passado designava um arruamento maior, que ligava a Rua Nova à antiga Rua do Castelo, ou seja, a novidade à tradição. Renasce, todavia, enquanto título de antologia. Como diria o poeta Sebastião da Gama, o símbolo visto ou ouvido tornou-se símbolo encontrado ou pensado, na medida em que o “outro” surge como elemento transfigurador da realidade. A rua deixa de ser rua ao transformar-se noutro lugar de circulação, se tivermos em conta a quase total homofonia com o termo ruah, que significa, como sabe, “sopro”, “vento”, “aragem”, mas sobretudo, na tradição judaico-cristã, o Espírito Santo. As epígrafes do livro, colhidas em Dalila Pereira da Costa, De Chirico e no padre António Vieira, explicam isto muito bem.

O facto de os poemas surgirem em forma de prosopoema é uma estratégia de comunicação?
Não sei se é uma estratégia de comunicação, mas é com toda a certeza um caminho da poesia, tal como a penso hoje em dia. Poderia ter transcrito nesta antologia todos os poemas tal como foram publicados nos livros originais. Penso contudo que o trabalho poético é incessante, não dispensando o apuro de tudo quanto publiquei no passado, mesmo daquilo que já parecia muito apurado. Escrever é reescrever. Daí que esta antologia seja também um novo livro de poemas meus. Foram todos revistos, reescritos, depurados, embora respeitando o seu cerne inicial e imaginal. Só usando os artifícios estilísticos mínimos é que o poema se institui enquanto demanda da verdade da palavra. E procurar a verdade da palavra será sempre encontrar aquele “não sei quê” que eleva o homem acima da sua condição biológica e dos seus instintos, ou seja, que o separa da animalidade ou da bestialidade e o transforma em ser vivente e não apenas existente.

A ordem dos livros na antologia corresponde à data da escrita e não à data da publicação?
Nem uma coisa nem outra. No início da antologia coloquei uma sequência publicada em 2003 na Black Sun Editores e que, de algum modo, é excêntrica na minha produção. Em termos de pensamento, é simultaneamente anterior e posterior a tudo quanto tenho escrito. Acabou por fixar-se neste livro como prólogo e está bem assim, embora também pudesse ser um epílogo, se este volume incluísse toda a minha poesia escrita e publicada até ao momento. No que respeita aos outros livros, estão por ordem cronológica de publicação, embora sem essa indicação, que pode ser contudo conferida na nota final. Tentei reduzir ao mínimo todos os aspectos paratextuais. Por isso retirei, também, as dedicatórias originais (o que não significa um apagamento, mas apenas uma atitude estética, tanto mais que para o leitor brasileiro nada significariam; só uma edição portuguesa justificaria a sua manutenção, ainda assim em nota final), bem como todas as menções às alavancas que levantaram os textos.

Alguns textos poéticos seus ficam excluídos desta selecção. Existe uma razão especial objectiva?
A edição desta antologia permitiu-me iniciar o processo de reescrita de todos os meus livros de poesia que, se algum dia houver editor, serão publicados em volume conjunto. Tratando-se neste caso de uma reunião de textos que sempre desejei investida de uma “esquelética robustez”, como dizia o velho humorista, tive de proceder a uma selecção, não só em função do meu gosto pessoal, enquanto leitor que de fora já lê os seus poemas, mas também procurando dar alguma coerência ao conjunto. Não consigo conceber um livro de poesia ou, sequer, uma antologia sem uma coesão interna. Nunca publiquei colectâneas de poemas, mas sequências poéticas. Não critico quem o faz, mas estou do lado daqueles que não conseguem fazer feixes de poemas como se atassem molhos de lenha.

Já com 14 anos de actividade poética permanente, reconhece-se na frase de Camilo Castelo Branco «A Poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade»?
Se tiver em conta que no Arquitectura do Silêncio, publicado em 2000, saíram poemas escritos entre 1992 e 1997, já ultrapassei as duas décadas de actividade… Verdade seja dita que este facto me provoca uma “inquietante estranheza”, como diria o Freud. Não discordando do Camilo Castelo Branco, autor que leio sempre com gosto não tanto pelas suas narrativas relativamente banais mas pela força da sua expressão musculada e imaginativa, que o coloca entre os melhores poetas em prosa da nossa língua, gosto sobretudo da noção de “saudade” inventada (ou seja, encontrada, descoberta) pelo Teixeira de Pascoaes, que bem se adapta ao que é a mais alta poesia: a poesia é simultaneamente esperança e lembrança. Ou seja, não tem presente (a não ser o da leitura). Esperança, porque é desejo, sonho e imaginação. Lembrança, porque é dor, regresso e rememoração. É a poesia, ou seja, a criação no mais elevado significado da palavra, que desfaz esta antinomia, não destruindo os dois termos, mas associando-os. Por isso a poesia é, simultaneamente, memória e profecia, recordação e amnésia, lembrança e esquecimento. Mas, sobretudo, liberdade, não só enquanto subversão dos códigos comunicativos da comunidade falante, mas enquanto procura desse “manjar” sublime de que falava frei Agostinho da Cruz, que consiste em “trazer o pensamento / Aceso na divina saudade”. Quem tiver ouvidos para ouvir, oiça... Talvez não seja fácil escutar algo nos dias que correm, em que o ruído nos acompanha, nos distrai e nos destrói… Sem atenção, nunca haverá contudo poesia nem entendimento, o que será decerto uma auto-estrada para a alienação mental e para o retrocesso civilizacional.

O título Rua da Outra Rua sugere um conjunto de casas. Há uma casa inicial de onde o poema afinal nunca saiu?
Procurei encontrar e definir essa casa inicial no meu primeiro livro – e por isso mesmo o intitulei Arquitectura – e em todos aqueles que lhe sucederam. Andei algum tempo às cegas, mas com muito maior clareza vejo hoje em dia onde se situa, embora saiba que nunca conseguirei sequer aproximar-me do seu esboço. Com os simbolistas oitocentistas, também afirmo convictamente que a poesia e a literatura não são campos coincidentes. Com frequência, opõem-se. Embora haja muitos textos escritos em verso, com todos os tiques daquilo a que costumamos chamar “poema”, uma grande quantidade pertence somente à literatura e nem de perto chega à poesia. Luto para que os meus textos não fiquem desse lado. Há na realidade uma casa inicial que é também a casa final. Por isso mesmo, quanto um dia juntar todos os meus poemas num único volume, hei-de dar-lhe o título de Arqueologia, na medida em que toda a poesia é uma forma imperfeita de tentar definir humanamente esse “princípio”, esse “começo”, que os gregos designavam arkhé.

Um dia Alexandre O’ Neill escreveu que o Poeta é o contrário do publicitário porque este «acrescenta às coisas aquilo que elas não são». Concorda?
De certa forma concordo, na medida em que o poeta, enquanto instrumento, pratica uma hermenêutica da realidade que, como se sabe, é bem mais vasta do que o concreto e o quotidiano, mesmo quando passados pelo joeiro da memória, quase sempre inventada ou recriada. Ou seja, procurando a verdade, o cerne, da palavra, do significante, acaba por descobrir, desvelando, a essência do significado. O que digo deve arrepiar aqueles que ainda defendem a arbitrariedade do signo, mas só numa língua de pau, de pau porque pauperizada (como aquela que a comunicação social, a propaganda e certa universidade nos querem impor, reduzindo-nos à condição de gagos mentais), é que uma coisa se separa por completo da outra.

Isto vem dar razão a Jorge de Sena quando afirma «ao longo dos tempos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes»?
Primeiro temos de descobrir que nomes têm verdadeiramente as coisas. E, ao mesmo tempo, encontrar os verbos que as fazem seres moventes e vivos, e não apenas existentes. Só depois disso as poderemos chamar, ou seja, invocar. Um velho poeta neoclássico, hoje quase esquecido, Francisco José Freire (que assinava com o pseudónimo Cândido Lusitano), dizia com muita razão que trovar, ou seja, escrever poesia, vem de “trouver”, verbo francês que significa encontrar e descobrir. Essa será sempre a nossa mais digna tarefa: descobrir, imaginar e interpretar. Não creio no entanto que o Sena pensasse nisto que digo quando proclamou essa frase. Talvez pensasse na poesia como veículo de intervenção social. Estou muito longe de concordar com aqueles que usam e usaram os poemas para fazer proclamações políticas e sociais. De boas intenções está o inferno cheio… e não consta que seja um lugar bem frequentado. Não sou como o outro que defendeu a abolição do “mistério da poesia” enquanto houver problemas económicos, sociais e políticos. Houve alguma época boa na história da humanidade? Não creio… Nenhum poema verdadeiramente grande se alheia do seu tempo e dos dramas aí vividos, mas a partir do momento em que se subordina a um desejo deliberado de transmissão de uma mensagem filantrópica, deixa de ser poesia para passar a ser literatura em verso, ou, pior, propaganda rimada. Muitos caíram nesse logro, inclusive alguns nomes grandes da nossa poesia. Acontece o mesmo com aqueles que julgam agarrar mais leitores imitando a linguagem anti-simbólica do nosso tempo ou transformando os seus versos em carrinhos de mão que transportam micro-narrativas mais ou menos inanes ou descrições jornalísticas… Mas seria assunto que levaria muito tempo a escalpelizar. Parece-me que não vale a pena gastar cera com ruins defuntos…

Na dicotomia entre «canção» e «reflexão» qual é o lugar da sua Poesia?
Não consigo separá-las e creio que nenhum poeta que deseje ser mais do que um literato o conseguirá. De certo modo, a canção é um meio e a reflexão o fim, se entendermos este termo não só enquanto sinónimo de pensamento, mas também, na sua etimologia, enquanto devolução imperfeita de uma imagem espelhada, não nossa, mas de algo que nos transcende enquanto seres humanos.

Sente que a Poesia, tal como a Oração, liga de novo os dois mundos separados pela Morte?
Não sinto, penso. Imponho todavia uma nuance na frase que me propõe. O que separa os dois mundos não é a morte, mas a existência, que será sempre uma redução da vida e até da vivência; a não ser que a existência sem vida seja um sinónimo de morte; se assim for, a maior parte dos seres humanos de hoje já morreu. Uma existência sem vida – aquela que o nosso tempo nos impõe a todo o momento, sem que a maior parte dos seres humanos saiba como fugir-lhe ou sequer tenha consciência do lugar infernal a que desceu – só poderá transformar-se numa vivência rumo à vida se nos dispusermos a trilhar o árduo caminho que nos leva à liberdade. A arte, não enquanto espectáculo ou substituto, mas enquanto catalisador da religiosidade, será sempre um dos melhores bordões nessa peregrinação. Por isso, a arte mais importante é simbólica. O que é simbólico liga, como diz a etimologia, e o contrário de simbólico é diabólico… Mas quem, neste mundo onde somos seduzidos e reduzidos por toda a tralha que o dinheiro pode comprar, estará disposto a tornar-se peregrino, ou seja, novato, aprendiz, estrangeiro no seu próprio país? Nem a maior parte daqueles que se dizem poetas…

No tempo de Cesário Verde era mais famoso Cláudio Nunes, no tempo de Camilo Pessanha o conhecido era Augusto Gil. Só o tempo pode decidir?
Sem dúvida. Os alfarrabistas estão cheios de livros escritos por autores que, em vida, eram idolatrados em todos os areópagos da moda. Ninguém os compra. Talvez devamos concordar com Pascoaes, que considerava a arte um ídolo falso que nos leva ao Deus verdadeiro, ou, como dizia o seu discípulo Sebastião da Gama, uma chave falsa que abre portas verdadeiras. Também não será má ideia relermos A Capital, do Eça. Este mundo está cheio de Romas… Como repetia uma senhora que o meu amigo bem conheceu, não têm qualquer habilidade para fazer o vestido, mas sabem “botar defeito”. Têm para cinco anos de imortalidade nas prateleiras dos arquivos. Nisto tudo, temos de ser “simples como as pombas e astutos como a serpentes”. Cristo tinha razão. Não podemos esquecer que, mesmo agora, os escaparates e as colecções de poesia de algumas editoras de topo estão cheios de grandes “ilusionistas”. Olhe, o David Mourão-Ferreira identificou alguns na nossa santa terrinha. Mas quem lê hoje os Vinte Poetas Contemporâneos? Identificou alguns, mas nem todos… Cesariny também descobriu a careca a um par deles, mas quase só na marginália dos livros da sua biblioteca. Só depois da morte de um poeta, de toda a sua família e de todos os seus amigos e clientes é que se sabe quanto vale a obra de um escritor de poemas. Mas quem nos saberá ler daqui por uns anos? Se o vocabulário se continuar a reduzir à velocidade actual, daqui por cem anos os seres humanos voltarão a grunhir… Aí, batatas… Valeremos todos o mesmo. Nessa altura, se houver cinquenta leitores de jeito em cada língua será uma sorte. Ainda assim, a poesia convulsiva será apreciada. Já estarão debaixo dos torrões ou feitos em cinza todos aqueles que, do seu pedestal, agora cospem sobre os poetas menos coloquiais, aos quais retiram direito de cidadania, reduzindo-os à condição de indigentes culturais. Talvez essa malta tenha sorte e veja os seus restos colocados no canteiro de um jardim público, onde os canídeos farão aquilo que a natureza lhes manda. Que apoteose! Não tenho dúvidas: se vivessem hoje e sem abrigo, como muitos poetas do nosso tempo, T. S. Eliot, Ezra Pound ou Paul Celan seriam autores subterrâneos, rejeitados pela sua dificuldade. Tiveram a sorte de existir noutro tempo. O que mais interessa é trabalharmos honradamente, como uma vez me escreveu Fernando Echevarría. Mas alguém se preocupa com a honra hoje em dia? A maior parte das pessoas, com tantos versejadores à cabeça, deve responder como um miúdo duma aldeia alentejana há quarenta anos: “Mais vale morrer sem honra”… Os escândalos da alta finança e da corrupção, bem como a sede existente nos nossos dias de ganhar dinheiro sem trabalho, provam que sou capaz de ter alguma razão.

Entre o «sangue pisado» da vida e o «estilo» da escrita será a Poesia um intervalo difícil de atingir porque difícil de dosear?
A poesia nunca poderá ser um escape. Ou seja, tem de incluir na sua massa o sangue pisado da existência e muito mais… Não há evolução humana sem a compreensão e a aceitação da dor e do sofrimento. Nisso (e em muito mais) ando de braço dado com o Raul Brandão, o nosso mais importante poeta em prosa, como bem o qualificou o nosso amigo de São João de Gatão. Tem de incluir na sua massa o sangue, mas não exclusivamente. Se assim fosse, os poemas deixariam de ser poemas e passariam a ser qualquer coisa parecida com as morcelas. Brinco com coisas sérias, eu sei. Quero apenas dizer que metemos as mãos no monturo para descobrir nele uma via de redenção. Como o pinto da história tradicional, que encontrou um copo de ouro no meio do estrume... José Mattoso acertou: não devemos ser apenas activos ou apenas contemplativos, mas praticar uma acção contemplativa ou uma contemplação activa. Ora, praticar esse caminho em poesia equivale a fazê-lo a tempo inteiro e de corpo inteiro, nunca num intervalo ou por diletantismo, na medida em que reconhecemos uma hierarquia, ou seja, um princípio sagrado. O poema é o intermediário entre a poesia e o poeta. E quem diz Poesia, como escreveu um vizinho meu falecido em 1952 com 27 anos, diz Verbo, diz Vida e diz Amor. Por isso tenho como regra de vida as palavras iniciais do salmo 115…
 
(Declarações tomadas em Azeitão por José do Carmo Francisco, a 11 de Novembro de 2014. Uma versão mais curta desta entrevista foi publicada na revista electrónica Inefável, dirigida por Pedro Silva Sena. Esta versão foi editada no nº 50 da revista Triplov, dirigida por Maria Estela Guedes, e pode ser lida aqui. Brevemente será reeditada no Brasil.)



A ARRÁBIDA: 
UM SANTUÁRIO ENTRE DUAS MEMÓRIAS

No passado sábado, 31 de Janeiro, proferi uma conferência intitulada "A Arrábida: um santuário entre duas memórias", no âmbito das comemorações do 40º aniversário do jornal "Raio de Luz" (Sesimbra), de que sou colaborador. O evento contou com a presença de monsenhor José Lobato, vigário-geral da diocese de Setúbal, em representação de D. Gilberto dos Reis, prelado diocesano, e da vice-presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, Dra. Felícia Costa. Encerrou com um espectáculo do coro Vocálise, de Caneças (Odivelas).

Fotos retiradas de: 
http://antonio-telmo-vida-e-obra.webnode.pt/news/no-passado-sabado%2c-no-40-%C2%BA-aniversario-do-%C2%ABraio-de-luz%C2%BB-/




RUA DA OUTRA RUA
prefácio de António Carlos Cortez

O prefácio de António Carlos Cortez que antecede a antologia Rua da Outra Rua [Lumme, São Paulo, 2014], de Ruy Ventura, foi reproduzido no nº 38 da revista electrónica Germina, no Brasil. Pode ser lido aqui.